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Desfiles pela
Paz e mais além ...
“Você e eu, podemos
ser o que determina a guerra, e depois, se estivermos
interessados em assustá-la, começar a transformação de nós mesmos, que
somos
os causadores da guerra”.
Krishnamurti.
Neste início de milênio, em que se esperava o fim da guerra e da violência,
o contrário está acontecendo. Qualquer evento mais grave como o do 11
de Setembro ou o reinicio da guerra do Iraque, costume provocar em todos
nós, que lidamos com a Paz nos seus diferentes aspectos, e também no
público em geral, um estado de estupefacção, acompanhado de impotência
e de desespero.
“Se as próprias Nações
Unidas e países poderosos não conseguiram evitar ou parar a guerra e
restabelecer a Paz, quem somos nos e quem sou eu para intervir com alguma
chance de êxito?”. Eis o tipo de comentário que mais se ouve na boca
de amigos e nas conversas sobre os eventos violentos.Não podemos nos
deixar levar por estes sentimentos derrotistas e destrutivos. A nossa
experiência de quinze anos de reflexões e acções no campo da paz,e do
estabelecimento de uma cultura de Paz através da Educação para a Paz,
nos leva a uma visão lúcida e sólida sobre o que convêm ser feito e
que atitudes e comportamentos são mais adequados nesta situação. Vamos
aqui fazer uma síntese que possa orientar os interessados
de modo claro e lúcido.
Em primeiro lugar o
nosso ponto de vista é de que existem soluções para todos estes problemas
visando despertar e manter a Paz, desde que se faça uma nítida distinção
entre ações a curto, médio e longo prazo.O grande público só enxergue
ações á curtíssimo prazo. São mais reações do que medidas pró-ativas.
Podemos situar desta categoria artigos e entrevistas de protestos na
imprensa escrita, falada e principalmente na TV. Esta última registra
e difunde a segunda categoria de reacções constituídas pelos desfiles
de roupa branca que se multiplicam de modo significativo.
Podemos reconhecer
aqui, algo mais profundo acontecendo actualmente e que pode alimentar
e reforçar as ações de prazo médio e longo. Com efeito podemos constatar
um fato novo: nunca houve, na história conhecida da humanidade, situações
como a que aconteceram nos meses de Fevereiro e de Março de 2003 em
que simultaneamente em quinhentos cidades do mundo, houve desfiles e
marchas de protesto contra a guerra e em favor da paz. Estamos numa
situação oposta á de dez anos atrás, por ocasião da guerra do Golfo,
em que a Unipaz, praticamente sozinha, plantava bandeiras brancas e
faixas na frente do Congresso Nacional em Brasília e em que eu foi convidado
pela TV Globo no programa nacional do café da manha, para me pronunciar
sobre a Paz. Foi também a Unipaz que realizou o primeiro desfile pela
Paz em Copacabana, com umas dez mil pessoas vestidas de branco.
Desfile constitui uma
primeira mensagem visual pela paz, unindo os corações dos que participam
dele ou que nele assistem. Ele também pode ser considerado como expressão
de um consenso em torno da paz e contra a guerra e a violência. E neste
sentido ele constitui uma enorme pressão sobre os diferentes órgãos
políticos do mundo. É o caso presente. Como acabamos de falar, pela
primeira vez na história, desfiles aconteceram simultaneamente em quinhentos
cidades do mundo.
Estamos agora diante
de um consenso mundial, em que pelo menos oitenta por cento da população
do mundo esta consciente de querer a Paz e de que ela existe e é possível.
Esta consciência inclui o conhecimento das causas económicas e políticas
da guerra e da violência que se tornem evidentes nesta primeira óptica
de visão a curto prazo.
ACÇÕES A CURTO PRAZO
Há nisto um progresso
imenso . Este é sem dúvida o aspecto positivo da própria situação ameaçadora
da guerra. Pode se dizer que graças a Bush e Saddam Hussein, o mundo
inteiro está despertando para a Paz. Muito mais, contrariamente ao que
pensa muita gente, o valor do papel das Nações Unidas, sai reforçado
e não empobrecido pelo que é percebido como desobediência dos USA e
reino Unido. Muitos são os representantes de países na ONU e o próprio
Conselho da Europa, á proporem modificações e reforços da legislação
e estrutura da Organização das Nações Unidas.
Entre estas eu proporia
uma Declaração do Direito dos Povos, que reforçaria a dos Direitos Humanos
no sentido de impedir a existência de ditaduras no mundo. A ausência
desta declaração, me parece responsável em parte pela confusão á respeito
desta segunda guerra do Golfe. Houve confusão e mistura de objetivos
de controles armamentistas com a vontade de terminar com a ditadura
de Saddam Hussein.
Torna se evidente também
que a guerra tem que ser colocada definitivamente fora da lei internacional
e que só as Nações Unidas pertence o direito e obrigação de manter uma
força armada policial que preencheria o mesmo papel para as nações do
que a polícia para os indivíduos dentro das nações: coibir abusos. A
ONU substituiria o papel policial que os USA pretendem actualmente exercer
no mundo. Numa situação transitória, seria previsto que este papel policial
poderia ser delegado pela ONU a certos países ou grupos de paises, o
que já é o caso actual das forças da ONU em certos conflitos.
O entusiasmo e as energias
despendidas para defender e instituir estes e outros pontos de vista,
bastante necessários, arriscam no entanto fazer esquecer ações a prazo
médio e longo prazo. Vamos pois definir estas á seguir.
ACÇÕES A PRAZO MÉDIO
A prazo médio é preciso
pensar na solução dos problemas e questões levantadas pelo curto prazo.
Por exemplo qual a origem da violência e quais as suas causas? Porque
e como o ser humano está se suicidando colectivamente destruindo a vida
no Planeta? Que medidas tomar para instituir uma educação para a Paz
e a instauração e preservação de uma Cultura de Paz?
Quais as questões e problemas
específicos se apresentam como de difícil solução para as autoridades
governamentais atuais e como contribuir para equacioná-los?
São questões que a Unipaz
está procurando esclarecer através de estudos e pesquisas, elaboração
de estratégias e planejamentos assim como seminários, fóruns e congressos.
Em relação ao primeiro grupo de perguntas, foi elaborada e publicada
uma teoria fundamental da Universidade Holística Internacional . Esta
teoria mostra a gênese da destruição da vida no Planeta, apontando para
uma nova visão holística e transdisciplinar da existência. O seu modelo
de base, a roda da destruição aponta para os principais factores responsáveis
por toda espécie de violência.
Ela aponta sobretudo para
princípios ultrapassados e ligados à uma antiga visão do mundo e das
causas da paz e da violência e que levam fatalmente à violência e guerra,
e de uma nova visão paradigmática do mundo levando á harmonia e paz.
Vamos a seguir dar uma visão resumida, enumerando, a título de exemplos,
alguns dos princípios ultrapassados e novos.
O paradigma ainda reinante
na ciência mas ultrapassado pela física quântica e pela psicologia transpessoal,
avança o principio segundo o qual só pode ser considerado como verdade
o que passa pelos cinco sentidos e pelo raciocínio lógico e formal.
O novo paradigma holístico e transdisciplinar enuncia o principio segundo
o qual a vivência da realidade é função do estado de consciência em
que se encontra o sujeito. Há por conseguinte outras verdades em outros
estados de consciência alem do estado de vigília em que foi elaborada
a ciência atual, o que nos leva ao segundo princípio.
A visão dualista e fragmentada
do mundo e dos indivíduos que leva ao princípio de que a Natureza vista
como exterior à pessoa humana pode ser explorada indiscriminadamente
por este, deve ser substituída por uma visão holística e transdisciplinar
segundo a qual tudo depende de tudo do que decorre o princípio segundo
o qual o indivíduo não somente faz parte da natureza mas que ele é feito
e composto por ela. Disto decorre que tudo que afeta a Natureza e o
todo, afeta cada um de nos como indivíduos.
Outro princípio ultrapassado
é que as guerras e a paz se encontram em Kosovo ou no Iraque. Esta visão
tem que ser substituída pelo princípio de que a paz e a violência nascem
no espírito e na menta de cada ser humano e que por conseguinte é ali
que precisam ser trabalhada e despertada a Paz e dissolvidas as causas
da violência., sem descartar no entanto a importância das negociações
e dos tratados de paz.
Outro princípio superado
pelas pesquisas e observações sobre causas de violência é o velho princípio
latino e romano: “Si vis pacem, para bellum”. Isto é : “Se você quer
paz, prepara a guerra”. O princípio moderno é pelo contrário: “se queres
paz, prepare a Paz”. Do princípio precedente decorre um outro princípio,
jurídico desta vez. É o princípio jurídico internacional de “Guerra
Justa”. Ultimamente, nas Nações Unidas, tem se desenvolvido um principio
oposto: o de guerra fora da Lei Internacional. Dentro do decênio da
Cultura de Paz, se considera como crime de guerra, o fato de uma pais
agredir o outro sem ter sido atacado ou sem autorização do Conselho
de Segurança das Nações Unidas.. Há nisto um progresso enorme. Enfim,
uma série de princípios ultrapassados pela evolução actual da humanidade,
são os decorrentes de quatro mil anos de domínio preponderante, da visão
masculina do mundo e da repressão dos valores femininos e aplicação
na vida contemporânea.
Decorre disto um predomínio
do raciocínio lógico e da razão sobre o sentimento e a intuição, da
efectividade sobre a afectividade, do pensamento sobre o amor. Resultou
disto uma frieza e indiferença generalizada às aplicações irresponsáveis
das tecnologias à serviço de valores destrutivos incluindo nisto o fabrico
e uso de armas de destruição em massa.
Estamos vivendo uma época
em que começa a despontar um novo princípio de equilíbrio entre o masculino
e o feminino, entre a efectividade e a afectividade, entre a lógica
e o amor. Uma revolução silenciosa está em marcha no nível civilizatório
e no nível do coração de cada um de nós. Será sem dúvida o papel da
nova educação para a Paz de preencher este papel de transformação nesta
era de transição de uma cultura de violência em Cultura de Paz. A mudança
destes princípios ultrapassados é questão da visão à longo prazo. É
nisto que consiste a visão à longo prazo.
O segundo grupo de perguntas
costuma ser atendido na Unipaz, através de debates e reflexões no nosso
colegiado transdisciplinar, perguntas que costumam se desdobrarem em
temas dos nossos congressos holísticos e em fóruns transdisciplinares.
Mas creio que neste momento
de transição, surgem para o Governo e seus Ministérios, questões cruciais,
que merecem um estudo especial e conseqüentes medidas especiais por
parte da Unipaz as quais poderiam eventualmente contribuir, dentro de
uma óptica mais distante e de uma visão do outro lado da luneta, para
jogar uma luz inesperada e apontar para soluções alternativas. Me refiro
mais particularmente a assuntos “quentes” ou mesmo ferventes como entre
outros:
- O Narcotráfico e o Crime
Organizado: Soluções eficazes;
- Novas Economias: Visões e experiências recentes.
- Educação para a Paz e Não Violência: Estratégias de implantação na
Educação Nacional.
- Transformação num período de Transição: Transpartidarismo Político
e Gestão Participativa Transministerial e Transdisciplinar.
ACÇÃO A LONGO PRAZO
É principalmente do desdobramento
da teoria fundamental que emerge a nossa acção á longo prazo, que vamos
passar á descrever de modo sucinto. A longo prazo se desenrola uma ação
educacional que é resumida no modelo chamado de Roda da Paz que constitui
uma tradução construtiva da roda da destruição.
Ela trabalha simultaneamente
em três direcções inseparáveis e a serem consideradas simultaneamente,
a saber:
Aprender a viver em
Paz:
Consigo mesmo, nos planos do corpo, do coração, da mente e do espírito.
Com os outros, nos planos da cultura, da política e da economia
e
Com a natureza, nos planos da matéria, da vida e da informação.
Estamos aqui diante de
um modelo abrangente pois integra três ecologias e três consciências
da seguinte forma.
A paz individual corresponde
à ecologia interior e à consciência pessoal.
A Paz Social corresponde à ecologia social e à consciência social.
A Paz Ambiental corresponde á ecologia da natureza e à consciência
ambiental.
O sistema todo enfoca
uma consciência universal e holística ou transpessoal.
O planejamento de educação pela paz, assim estruturado se faz em três
níveis.
Em nível de sensibilização existem seminários tais como o de Arte de
Viver em Paz cujo livro é editado pela Unesco em Paris. Nele as pessoas
aprendem a descobrir por vivências e experiências onde se encontra a
Paz e como ela se manifesta.
No nível de formação a
Unipaz trabalha durante vários anos com crianças na Casa do Sol, adolescentes,
no programa Taba, Jovens na formação de Jovens Lideres e Adultos na
Formação Holística de Base.
As pessoas que saem desta
formação descobriram alem do sentido da existência, uma nova maneira
de viver e de ser, em paz e plenitude.
Muitas são as práticas que acompanham a actuação pedagógica. Entre elas
podemos citar a transdisciplinaridade, que implica e integra transreligiosidade,
transpolítica, transversalidade educativa, educação e terapia transpessoal,
educação e terapia iniciática, gestão holística e transdisciplinar,
saúde holística, ecovila. Cada um destes temas corresponde á teorias
e acções precisas dentro de atividades planejadas. Os planejamentos
se fazem dentro de um sistema programado.Neste sistema, dezenas de programas
e projectos são realizados em convênios com instituições privadas e
públicas, numa rede universitária de mais de
trinta unidades no Brasil, na Europa, Oriente Médio e Mercosul.
Como se vê, estamos longe
dos desfiles pela paz. Vistos deste ponto de vista a longo prazo, eles
ocupam uma área superficial embora importante. É também superficial
embora importante, pensar que se consegue paz através do desarmamento.
Sem desarmamento interior, pode se retirar todas as armas do mundo,
e os seres humanos irão se bater com facas e ponta pés!
Se quisermos realmente paz no mundo estejamos convencidos que ela começa
em cada um de nos. É uma longa caminhada, que começa pelos desfiles
da paz, mas que precisa ir alem, muito alem...!
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